quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Solidão


Eu demorei a entender. Demorei tanto para perceber o óbvio. Para notar que eu sempre estive sozinho. E que o mais foda não é se sentir sozinho estando sem ninguém. O pior é perceber que se estava sozinho junto com alguém. Junto com todas as pessoas. Sozinho junto é muito mais doloroso do que sozinho separado. Porque você imagina que deveria ter alguém ali, do lado te entendendo, te dando força. Uma namorada, um amigo, ou até os pais. Mas na verdade tu notas que só tu que entende, só tu quem dá força. E eu olho em volta e é como se aquilo tudo que todo mundo vive, não é para mim. Aquilo de mãos dadas, e compreensão, e anos de cumplicidade, simplesmente não é para ser meu. Simples assim. E eu vou afundando no meu mundo de álcool, e músicas e cigarros... E vou me distraindo com o que tem para hoje. Um bar ali, um livro acolá, uma lambida do cachorro. E tudo isso deveria ser suficiente. Deveria preencher esse vazio enorme que parece não ter fim. Mas não preenche. E o buraco vai ficando cada vez maior e mais profundo e deprimente. E não há álcool, músicas e cigarros que dê jeito. Nem a lambida do cachorro. E eu tenho que conviver com o vazio, com as pessoas felizes ao meu redor que parece que conseguiram tudo aquilo que eu não consegui. E sempre tem alguém para me dizer que tudo vai ficar bem, que tudo vai dar certo, que é assim mesmo, mas tudo passa, não se preocupe... E eu não quero mais ouvir nada. Não quero mais consolos vazios. Frases pré-fabricadas para pessoas que não sabem lidar com esse mar de solidão como eu. Não quero mais escutar conselhos que eu tento seguir desde sempre e que nunca me deram nada de volta. Talvez seja melhor guardar meus lamentos para mim mesmo. Blindar meu coração do mundo. Toda manhã gritar ‘Tô blindando meu coração’ pra ver se alguém sente falta ou que fale ‘Opa, espera aí, me deixa entrar’. Minha vida deslocada, sempre tão deslocada e sem rumo. Sempre parecendo tão decidido e objetivo, mas no fundo completamente perdido de frustrado. E eu penso, penso tanto em tantas coisas, que parece que a minha cabeça vai explodir de tantas ideias. E eu já não sei mais o que fazer. Já não sei mais a quem ou a o que recorrer. O vazio está levando tudo, como um buraco negro que varre tudo para dentro dele e não há nada que se possa fazer. Só esperar. Esperar que um dia tudo passe de verdade. E as coisas comecem a fazer o mínimo de sentido.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Nostalgia



Ainda sinto o gosto do teu beijo, do nosso tempo cheio de planos e promessas. Tu ias à minha casa todo dia depois da faculdade, ficávamos ouvindo a chuva caindo lá fora. Olhando de relance a novela e vendo o guri bonitinho apaixonado pela guria bonitinha, tu me olhavas com um sorrisinho de canto de boca e eu respondia com outro, como se disséssemos 'Olha nós'. Muito bregas. Mas amor é brega, certo? Amar, falar aquelas besteiras, achar que o mundo gira em torno de alguém é extremamente brega. Planejávamos aquela viagem pra Paris, lembra? Deitávamos naquele jardim, debaixo da macieira, e ali pensávamos no que íamos fazer ao terminar faculdade, porque o combinado era tu e eu pra sempre, não era?
Eu não sei se ainda sinto aquilo que acho que sinto. Caminho naquele parque pensando em ti e nas tantas vezes que passeamos de mãos dadas por ali. Já tinham se passado tantos anos, tantas outras vieram no teu lugar, mas nenhuma ocupou em meu peito o espaço que tu ocupaste. E aquilo me incomoda. Aquela sensação que não esquecerei jamais. Que tinha vivido o grande amor de minha vida, mas tinha te deixado passar. Escorrer por entre os dedos como a areia de um grande deserto. Tento em vão não pensar. Sinto fome, medo, angústia, tudo junto e misturado e achava que a qualquer momento eu desapareceria do mundo. Se não prestasse atenção, no próximo passo eu iria evaporar. E isso não podia acontecer. Não posso te esquecer. Nem deixar passar.
Existem as lembranças boas, as lembranças ruins e as lembranças boas que viram lembranças ruins. As lembranças boas a gente guarda no fundo do coração para usar sempre que precisar. As lembranças ruins a gente joga fora junto com os sentimentos que elas trouxeram. E para as lembranças boas que viraram lembranças ruins, a gente substitui essas lembranças por lembranças novas, com pessoas novas e sentimentos novos. Mas que lembranças novas? Que pessoas novas? Que sentimentos novos? Sou só saudades. Não existe mais ninguém. Nem a guria bonitinha nem a feinha. Nada. Só a chuva, o vento e um enorme vazio.