quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Nostalgia



Ainda sinto o gosto do teu beijo, do nosso tempo cheio de planos e promessas. Tu ias à minha casa todo dia depois da faculdade, ficávamos ouvindo a chuva caindo lá fora. Olhando de relance a novela e vendo o guri bonitinho apaixonado pela guria bonitinha, tu me olhavas com um sorrisinho de canto de boca e eu respondia com outro, como se disséssemos 'Olha nós'. Muito bregas. Mas amor é brega, certo? Amar, falar aquelas besteiras, achar que o mundo gira em torno de alguém é extremamente brega. Planejávamos aquela viagem pra Paris, lembra? Deitávamos naquele jardim, debaixo da macieira, e ali pensávamos no que íamos fazer ao terminar faculdade, porque o combinado era tu e eu pra sempre, não era?
Eu não sei se ainda sinto aquilo que acho que sinto. Caminho naquele parque pensando em ti e nas tantas vezes que passeamos de mãos dadas por ali. Já tinham se passado tantos anos, tantas outras vieram no teu lugar, mas nenhuma ocupou em meu peito o espaço que tu ocupaste. E aquilo me incomoda. Aquela sensação que não esquecerei jamais. Que tinha vivido o grande amor de minha vida, mas tinha te deixado passar. Escorrer por entre os dedos como a areia de um grande deserto. Tento em vão não pensar. Sinto fome, medo, angústia, tudo junto e misturado e achava que a qualquer momento eu desapareceria do mundo. Se não prestasse atenção, no próximo passo eu iria evaporar. E isso não podia acontecer. Não posso te esquecer. Nem deixar passar.
Existem as lembranças boas, as lembranças ruins e as lembranças boas que viram lembranças ruins. As lembranças boas a gente guarda no fundo do coração para usar sempre que precisar. As lembranças ruins a gente joga fora junto com os sentimentos que elas trouxeram. E para as lembranças boas que viraram lembranças ruins, a gente substitui essas lembranças por lembranças novas, com pessoas novas e sentimentos novos. Mas que lembranças novas? Que pessoas novas? Que sentimentos novos? Sou só saudades. Não existe mais ninguém. Nem a guria bonitinha nem a feinha. Nada. Só a chuva, o vento e um enorme vazio.

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